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Uma
ficção no Principado de Sauipe
Há
tempos não tirava férias tão boas.
A cada semana que se aproximava nós recebíamos do
resort mensagens dizendo que estavam ansiosos por nossa chegada.
Até ligaram para minha esposa para avisar que uma conhecida
dela havia se apaixonado no resort: pelo próprio marido!
A data de embarque chegou e fomos à Bahia.
Saímos do avião e já fomos saudados por baianas
na porta da aeronave. O "finger" era climatizado e música
anunciava que estávamos de férias. A música
nos acompanhou até as bagagens. Lá havia funcionários
do resort que se preocupavam em pegar as malas. Nem fiz esforço
por elas. Saí com a família e fui para uma sala VIP
muito, mas muito grande. Explicaram-me: era um tipo de recepção
do resort. Fiz, então, o check-in. Saí de lá
com nossa suíte no bolso. Enquanto isso meus filhos esticavam
as pernas no vídeo game e minha esposa servia-se d'água.
A funcionária disse-nos que iria demorar 5 minutos até
embarcarmos. Não deu nem isso!
Fomos para um ônibus e serviram-me com um coquetel. Para minha
esposa também e para as crianças refrigerantes. Saímos
rápido e o guia foi 10; ele conquistou as crianças
com mágica.
Na seqüência: vídeo do resort. A Fernanda Lima,
que fala de turismo na tv, nos conduziu a cada canto do resort e
nos explicou tudo. O que fazer e como reservar cada atividade. Nem
sentimos que até o resort era uma viagem. Passou rápido.
O vídeo foi perfeito: sabíamos de tudo. Programamos
tudo usando a planilha do check in e reservamos o que queríamos
na chegada.
Ainda bem, o resort estava cheio de gringos maníacos por
reservas.
Meus filhos arrumaram suas coisas na suíte e foram ao parque
aquático (os donos do resort pegaram os equipamentos de um
parque falido em Salvador, mudaram os equipamentos e os colocaram
lá como novos). Fui namorar minha esposa.
A cada dia jantávamos numa pousada. Tinha a de um casal de
portugueses que moravam lá. Faziam um bacalhau bestial. Na
dos suíços a carta de vinhos era soberba. Tinha também
a dos franceses, a dos italianos, a dos alemães e a de paulistas
que se cansaram da poluição. Eles serviam grelhados
fantásticos.
Na Vila Nova da Praia todo dia tinha show típico. Alto-falantes
anunciavam eventos em 5 línguas e todos adoravam aquelas
festas no meio da rua.
Aquele lugar tinha alma!
Um dia vimos nossos filhos divertindo-se no estúdio da MTV.
Todo dia um programa era transmitido ao vivo. Os guris tinham aulas
de música. Até trouxeram um CD cantando junto com
a voz de um ministro, o Gil. O CD tinha a foto de todos, inclusive
a do ministro.
Fascinante educar crianças carentes privilegiando a música.
Legal que músicos como o Gil e o Caetano apoiavam. Isso induziu
empresas a fazer o mesmo e os turistas, como eu, pagavam a diversão
dos filhos e contribuíam com a educação de
crianças locais.
Meu menor amou a Casa do Peixe-Boi. Deu mamadeira para os filhotes.
Assistiu vídeos, brincou, teve aula de artes.
A gastronomia não nos ajudava a perder peso. Foram os programas
matinais de exercícios na praia (que depois foram transmitidos
pela tv) que nos permitiam ter mais maravilhas gastronômicas
do complexo.
Tudo foi muito bom. Trouxemos lembranças gloriosas.
Lamento essa história ser apenas ficção.
Não há recepção adequada no aeroporto,
o trajeto ao resort é chato, o check in é lento, a
Vila Nova da Praia é desalmada, as pousadas têm restaurantes
insossos. O parque aquático é imaginário, assim
como os outros equipamentos.
Sauipe tem poucas atrações e foi considerado um elefante
branco por "especialistas".
Sauipe merece ser um complexo turístico de sucesso ou pode
ser apenas um território encravado na Bahia.
É apenas um problema empresarial.
José
Ernesto Marino Neto, ISHC, é fundador e presidente da BSH
International, membro da ISHC - International Society of Hospitality
Consultants, Professor de Gestão de Ativos Hoteleiros da
EBAPE/FGV, membro do Conselho Consultivo do Centro de Hotelaria,
Turismo e Administração de Esportes da Universidade
de Nova York e membro do Conselho Consultivo Global da Hotels' Investment
Outlook.
Fonte:
Estado de SP, Caderno Viagem, pág. 2
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